Frente as obscuridades conceituais que marcam o universo da Filosofia, Ortega diz ser a clareza uma cortesia do filósofo. Boa parte dos seus escritos, para não dizer quase todos, apresenta a tentativa de aproximação do leitor aos conceitos trabalhados, apropriando-se de alguns recursos literários como a metáfora. O uso da metáfora para Ortega ocorre em situações em que não é possível empregar diretamente um nome a uma coisa, por se tratar de uma realidade escorregadia que escapa a nossa teia intelectual. O tema a ser abordado desafia por demais a objetividade conceitual pela sua dinamicidade, remetendo-nos ao uso metafórico de uma figura bem próxima da história das navegações ibero-americanas. A tentativa de novos horizontes implicou no risco constante das intempéries da natureza frente aos limitados recursos utilizados para atingi-los, sendo por muitas vezes o náufrago uma possibilidade quase certa no percurso dos colonos desbravadores. Assim como um navegante lançado na imensidão do oceano por alguma astúcia da natureza, o homem ao passar a existir necessita encontrar uma saída para sobreviver pelo fato da vida carecer sempre de salvação. Salvar para Ortega tem um conteúdo hermenêutico mediante a significação necessária à vida. Senti-se perdido entre as coisas é a primeira e grande revelação de Ortega, pois dela parte o que entende por vida humana. A experiência de desorientação provém de um desamparo ontológico frente a natureza justificada pelo seu programa vital. Cada ser vivo traz em si uma determinação biológica que conduz toda a sua existência. Enquanto para o animal a vida é dada pronta, para o homem é oferecida somente a possibilidade de viver, pois a vida não é uma coisa mas tenho eu que inventá-la, construí-la num esquema intelectual, em suma, numa crença sobre ela. Comparando a vida a um náufrago, Ortega reforça a idéia de que a vida é um drama, repleta de incertezas, o que exige constantemente do homem o exercício da liberdade. Naufragar é ao mesmo tempo ser lançado em um ambiente que exige do tripulante um esforço para sobreviver. Neste sentido Ortega vai afirmar que a vida é luta, conquista, e a ação do homem consiste em conquistar a própria vida. Nesse intuito ele constrói idéias, objetos, cultura, técnica. Tudo isso representa o horizonte que garante segurança para o homem continuar existindo. Nas Meditações de Quixote Ortega complementa essa ideia ao afirmar que o homem leva dentro de si os despojos de um herói. O herói é sempre aquele que carrega em si a vontade de ser o que ainda não é. Ser herói consiste em alguém ser si mesmo.
COSTA, Edson Ferreira
COSTA, Edson Ferreira
Nenhum comentário:
Postar um comentário