sexta-feira, 3 de junho de 2016

A FARSA DA IGUALDADE

Lendo "Hegel y la america", texto escrito por Ortega, fica a inquietação de como o pensamento marca profundamente a história da nossa sociedade ocidental, pensamento esse que por muito tem sido ferramenta cruel de negação das diferenças pela construção de ideais de coletividade e pacificação. Nem mesmo a natureza com toda a sua força vital consegue criar um universo uníssono. Qual o problema da diferença? Por séculos alimentamos a ideologia da igualdade como caminho seguro para construção de um Estado de Direito. Como ser igual sendo que nossas subjetividades são marcadas pela diferença? Até o momento lutamos contra nós mesmos, criamos teias de todas as naturezas que nos põe numa servidão muitas vezes inconsciente, mas que em prol de algo ou alguém levantamos bandeiras que cobrem nossa singularidade.

sábado, 25 de agosto de 2012

O SONO DA RAZÃO - GOYA



Obra de GOYA que revela a pretensão da razão em iluminar a consciência sobre os vícios. Numa leitura iluminista, somente a razão pode iluminar os monstros e vícios que se escondem na mente humana.

sábado, 3 de março de 2012

APONTAMENTO DA ALMA

Hoje resolvi escrever mais alguma coisa. Vida prática e vida teórica parecem muitas não combinar. O exercício da filosofia exige um tempo considerado ao tempo virtual, muito aquém do cronológico. A quantidade de questões práticas a resolver não me permitem esse privilégio, mas a alma reclama. Movido pelo próprio ser filosófico, parar, ler, analisar, refletir, registrar, recriar...faz com que inúmeras vezes eu pare no tempo. Aos desavisados isto parece aerelice, mas não, é a necessidade que o próprio organismo tem depois de alguns anos de exercício do pensar...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ORTEGA Y GASSET E A ESCOLA


O conceito de razão vital é o principal fundamento das idéias de Ortega y Gasset no campo da Educação. O fortalecimento do psiquismo infantil seria o objetivo prioritário, devendo ocupar todo o Ensino Fundamental ou pelo menos as primeiras séries. "Nessa fase, é necessário assegurar e formatar a vida original e espontânea do espírito", diz Juan Guillermo Droguett. "A Pedagogia deve buscar no conhecimento biológico suas motivações e perspectivas antes de tentar incorporar a criança na vida organizada dos adultos."

O pensador espanhol criticava a formação dos professores porque ela estaria orientada para encaixar os alunos numa cultura rígida e previamente sistematizada. "O princípio mecanicista reprime a desordem magnífica e criadora que a criança traz como equipamento vital", afirma Droguett. O ensino deveria introduzir conteúdos e tarefas com ênfase no estudo dos mitos da humanidade , mas na circunstância própria de cada criança. O filósofo espanhol dizia que a escola tradicional educa apenas "para o ontem" e não com vistas ao futuro, do mesmo modo que oferece um preparo individual, mas não para a vida em sociedade. Isso porque não leva em conta que cada aluno se articula, por uma rede de relações, a comunidades cada vez mais amplas. Do ponto de vista da educação política, deveria haver um esforço pedagógico para evitar a "rebelião das massas" (título de um de seus livros). Para que o homem-massa não abandone sua desejável docilidade e caia no erro de assumir a função de exemplo, é necessário reforçar os fins morais da Educação e estimular, na minoria, a missão de esclarecer os demais. Todo ser humano e toda formação social equilibrada, segundo o pensador, são como mecanismos em busca da perfeição. E a escola deveria ser um dos veículos desse processo.

Publicado em NOVA ESCOLA Edição 194, Agosto 2006


NÃO SÃO AS CIRCUNSTÂNCIAS QUE DECIDEM A NOSSA

A nossa vida, como repertório de possibilidades, é magnífica, exuberante, superior a todas as históricamente conhecidas. Mas assim como o seu formato é maior, transbordou todos os caminhos, princípios, normas e ideais legados pela tradição. É mais vida que todas as vidas, e por isso mesmo mais problemática. Não pode orientar-se no pretérito. Tem de inventar o seu próprio destino.

Mas agora é preciso completar o diagnóstico. A vida, que é, antes de tudo, o que podemos ser, vida possível, é também, e por isso mesmo, decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. A circunstância – as possibilidades – é o que da nossa vida nos é dado e imposto. Isso constitui o que chamamos o mundo. A vida não elege o seu mundo, mas viver é encontrar-se, imediatamente, em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. O nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra a nossa vida.
Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil, cuja trajectória está absolutamente pré-determinada. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo – o mundo é sempre este, este de agora – consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória, impõe-nos várias e, consequentemente, força-nos... a eleger. Surpreendente condição a da nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem mum só instante se deixa descansar a nossa actividade de decisão. Inclusivé quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir.

É, pois, falso dizer que na vida «decidem as circunstâncias». Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.

Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas'