domingo, 27 de dezembro de 2009

Quando paro a pensar no meu estado,
e a ver os passos por que fui trazido,
me supreendo que um homem tão perdido
seus erros a saber tenha chegado.

Quando vejo meu tempo já passado,
a divina razão posta no olvido,
reconheço que ao céu era devido
não ter-me em tanto mal precipitado.

Entreo num labirinto tão insano,
só confiando ao débil fio da vida
o tarde conhecido desengano;

mas minha sombra, à tua luz, vencida,
o monstro morto do meu cego engano,
retorna à pátria, a razão perdida.

Ir e ficar, e por ficar partir-se,
é isso o que chamam neste mundo ausência,
fogo no espírito, e na vida inferno.
partir sem alma, e ir com a alma alheia,
ouvir a doce voz de uma sereia
e não poder da árvore sair-se;

arder feito uma vela e consumir-se,
construindo castelos sobre a areia;
cari de um céu, ser monstro na cadeia,
e mesmo sendo nunca compungir-se;

falar em meio a mudas soledades,
pelo céu implorar por paciência,
e a tudo o que pe fugaz chamar eterno;

crer em suspeitas e negar verdades,
é isto o que chama nesse mundo ausência,
fogo no espírito, e na vida inferno.

(LOPE DE VEGA)

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